Morre Sacilotto, o mestre das formas e das cores


Morre Sacilotto, o mestre
das formas e das cores
1924-2003
.

Terça-feira, 11 de fevereiro de 2003
 

Artista ajudou a transformar a arte brasileira,
sendo um dos líderes do concretismo

Paulo Pinto/AE – 3/5/95

Luiz Sacilotto: artista manteve-se interessado ao longo de sua carreira pela lógica das formas, traduzindo em signos o mundo à sua volta

MARIA HIRSZMAN

Morreu anteontem, aos 78 anos, o artista plástico Luiz Sacilotto. Figura central do movimento concretista, que sacudiu a arte brasileira há meio século ao defender a revogação dos princípios naturalistas de representação em prol de uma linguagem universal, Sacilotto manteve-se fiel em sua longa carreira a um profundo interesse pela lógica das formas, transformando em vibração geométrica e cromática o que ocorria a sua volta, pois engana-se quem pensa que a repetição e simplificação concretista decorre de um alheamento do mundo. Como disse o artista em entrevista recente ao Caderno 2: "Quando olho a TV, quando vejo a Xuxa, não olho aqui que estão fazendo, mas o que está no fundo, o cenário, o chão, os sinais. O mundo não pára, está em constante mutação e, portanto, a visualidade nunca se esgota."

Sérgio Guerrini/Divulgação

‘Concreção’, obra de 1952: um de seus estudos geométricos da superfície

Nascido em Santo André, onde sempre viveu, Sacilotto era filho de imigrantes italianos e entrou para o mundo da arte graças ao conselho de um cliente de seu pai que, ao ver seus desenhos, aconselhou-o a matriculá-lo numa escola especializada. A porta de entrada foi o Instituto Profissional Masculino, na verdade uma instituição profissionalizante. Foi aí que conheceu dois companheiros essenciais em sua trajetória: Marcello Grassmann, então com 14 anos, e Octávio Araújo, com 31. "Tornaram-se grandes amigos. Discutiam os problemas da arte. Freqüentavam juntos a Biblioteca do Instituto Profissional Masculino, na Rua Piratininga e a Biblioteca Municipal de São Paulo, na Praça Dom José Gaspar, no centro da cidade", descreve o crítico Enock Sacramento no livro dedicado à obra de Sacilotto que lançou recentemente. O próprio Sacilotto afirma que foi aí que sua arte começou de fato.

Divulgação

‘Concreção 7959’: várias impressões visuais e ilusão de movimento

Mas por razões econômicas foi necessário ainda algum tempo para que ele se afirmasse como artista. Formado em 1944, Sacilotto começou a trabalhar como desenhista de letras de alta precisão e depois como auxiliar num escritório de arquitetura, enquanto se dedicava à pintura e ao desenho, com forte teor expressionista. Como explica o crítico Walter Zanini, foi no escritório de arquitetura que descobriu um novo e sugestivo mundo: o das plantas e projetos de arte. "Empolgou-se com o estudo geométrico da superfície, com o vigor e a limpeza da composição, com a distribuição dos elementos representativos no espaço."
A transição do naturalismo expressionista para o rigor da geometria construtiva se deu paulatinamente, no final da década de 40. Em 1947 conhece Waldemar Cordeiro, com quem passa a manter uma intensa relação, tornando-se um dos membros do movimento Ruptura, liderado por Cordeiro cujo cinqüentenário foi lembrado no ano passado com um excelente ciclo de exposições organizado no Centro Universitário Maria Antonia.

Divulgação

‘Figura’, óleo sobre tela: nos anos de 48 e 49 artista vai aos poucos mudando a cena em uma composição geométrica, dissecando-a em planos e cores

A transição se deu de maneira intensa, mas gradual. Há interessantes pinturas feitas por ele nos anos de 48 e 49 nas quais é possível verificar como o artista vai aos poucos transformando a cena em uma composição geométrica, dissecando-a em planos e cores.
Em 1948, segundo Sacramento, surge sua primeira pintura abstrata. Sua última tentativa de pintura figurativa, um retrato de sua mulher, data de 1950. No ano seguinte, Sacilotto já mostrava na 1.ª Bienal de São Paulo a tela Pintura 1, realizada no ano anterior sob forte influência do recém-descoberto Mondrian. A mostra, cujo prêmio internacional de escultura foi dado ao suíço Max Bill, foi importante para canalizar os jovens artistas em torno de um movimento coeso e em sintonia com a produção internacional.

Divulgação

‘Concreção 0005’, escultura em aço carbono pintado, com 4 metros de altura, construída em 2000 e instalada em Santo André, cidade onde nasceu e viveu

Um dos principais atrativos da obra de Sacilotto é a liberdade com que lida com as ambigüidades da forma, criando inúmeras combinações a partir de um mesmo e limitado universo de padrões e elementos. "Ele joga com a percepção ambígua do que está na frente, atrás ou entre o quadrado, seja ele pintado, cortado ou dobrado", explica Maria Alice Milliet, em texto publicado no catálogo da mostra dos 500 Anos.
Não é só no campo da pintura e do desenho que Sacilotto demonstrou todo o seu talento. O crítico Adolpho Leirner, que possui a mais significativa coleção de arte concreta brasileira, lembra que ele foi o primeiro a fazer uma dobra na pintura brasileira, em meados dos anos 50. A peça, que se encontra em sua coleção, antecedeu os célebres Bichos, de Lygia Clark. Ela própria teria dito a Sacilotto que faria a mesma coisa que ele, só que a dela iria se mexer.
Há dois belos exemplos de sua produção escultórica em locais públicos de Santo André, que recentemente homenageou o artista ao instalar na cidade dois trabalhos seus. "Estar ao alcance do público dessa maneira é uma verdadeira conquista para a arte", disse ele por ocasião da inauguração das obras.
Se sua cidade natal o relembrou recentemente, há bastante tempo que não se realiza uma grande mostra de sua obra. Galerias como Silvio Nery e Dan também realizaram exposições com recortes de sua produção, mas sua última retrospectiva data de 1985.

REPERCUSSÃO

     Sacilotto tem grande importância na arte brasileira da segunda metade do século 20, porque foi uma das figuras mais proeminentes do concretismo do País. O ponto de partida desse movimento ocorreu em 1952, com a exposição Ruptura, organizada por Waldemar Cordeiro, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo. Em 68, quando foi organizado o primeiro Salão de Arte Contemporânea, em Santo André, pediram para Cordeiro escrever um prefácio e, em seu texto, ele chamou Sacilotto de viga mestra da arte concreta brasileira. Sacilotto foi uma das mais importantes figuras da arte brasileira, porque o concretismo foi um dos mais importantes movimentos da arte brasileira.
Enock Sacramento, autor do livro 'Sacilotto'

     Eu estava viajando e fiquei chocado ao saber da notícia. E ontem à noite, eu estava com um livro dele nas mãos. Eu adorava Sacilotto, éramos amigos, ouvíamos músicas juntos. Era uma pessoa honesta, sincera, simples. Tinha tudo que um artista deve ter. Perdemos um grande amigo, uma pessoa linda e humilde, um grande concretista. Talvez o mais coerente deles.
Adolpho Leirner, que reúne uma das mais importantes coleções de arte concreta brasileira

     Soube agora da morte dele. Não há dúvidas de que foi um dos mais importantes artistas do concretismo. E continuava ativo. Não só era um dos mais importantes da arte concretista, como continuava produzindo. É uma perda. Estamos perdendo os artistas que foram grandes responsáveis pela arte moderna brasileira, que mudaram a fase da arte no País. Essa geração foi tão fundamental para a formação da arte brasileira, que teve repercussão internacional.
Vera d'Horta, pesquisadora do Museu Lasar Segall

     Sacilotto foi um integrante convicto do movimento concretista e sempre acreditou em suas palavras de ordem. Não esqueço de que só aceitava a música de Schoenberg - e nunca a de Stravinski, seu "rival" - porque essa era a verdade das vanguardas nos anos 1950, e ele aprendeu assim. Como bom concretista, entendia a arte como produto, não como expressão da individualidade. Queria construir formas objetivas e estáveis, não extravasar. No entanto, paradoxalmente, foi também um artista intuitivo e sensível - talvez o mais sensível do grupo todo. Se podemos usar esse termo para um pintor com seus princípios, teve até momentos de lirismo, nos anos 50 e 60, com certeza a despeito dele mesmo. Deixa uma obra inteligente e muito respeitável mas - previsivelmente - não muito envolvente, não contagiante.
Olívio Tavares de Araújo, crítico de arte

     O Sacilotto foi um artista fundamental na história da arte brasileira. O uso que ele fazia das cores na década de 50 e na posterior influenciou muitos artistas, como Lígia Clark. Do pessoal do Ruptura, ele era o que tinha a sensibilidade de cor mais apurada. Foi o Sacilotto que trouxe a combinação inusitada do roxo e do laranja, por exemplo. Não há dúvida que ele foi um dos mais importantes artistas da fase concreta. É uma pena.
Lorenzo Mammì, diretor do Centro Maria Antônia

http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/02/11/cad028.html


VEJA MAIS

 
 

.
Responsável: Paulo Victorino
pinturauniversal@ieg.com.br

www.pinturauniversal.hpg.com.br
.