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| Terça-feira,
11 de fevereiro de 2003 |
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Artista ajudou a
transformar a arte brasileira,
sendo um dos líderes do concretismo

Luiz
Sacilotto: artista manteve-se interessado ao longo de sua carreira pela lógica das
formas, traduzindo em signos o mundo à sua volta
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MARIA HIRSZMAN
Morreu anteontem, aos 78 anos, o artista plástico Luiz Sacilotto.
Figura central do movimento concretista, que sacudiu a arte brasileira há meio século ao
defender a revogação dos princípios naturalistas de representação em prol de uma
linguagem universal, Sacilotto manteve-se fiel em sua longa carreira a um profundo
interesse pela lógica das formas, transformando em vibração geométrica e cromática o
que ocorria a sua volta, pois engana-se quem pensa que a repetição e simplificação
concretista decorre de um alheamento do mundo. Como disse o artista em entrevista recente
ao Caderno 2: "Quando olho a TV, quando vejo a Xuxa, não olho aqui que estão
fazendo, mas o que está no fundo, o cenário, o chão, os sinais. O mundo não pára,
está em constante mutação e, portanto, a visualidade nunca se esgota."
 Sérgio
Guerrini/Divulgação
Concreção,
obra de 1952: um de seus estudos geométricos da superfície |
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- Nascido em Santo André, onde sempre viveu, Sacilotto era filho de
imigrantes italianos e entrou para o mundo da arte graças ao conselho de um cliente de
seu pai que, ao ver seus desenhos, aconselhou-o a matriculá-lo numa escola especializada.
A porta de entrada foi o Instituto Profissional Masculino, na verdade uma instituição
profissionalizante. Foi aí que conheceu dois companheiros essenciais em sua trajetória:
Marcello Grassmann, então com 14 anos, e Octávio Araújo, com 31. "Tornaram-se
grandes amigos. Discutiam os problemas da arte. Freqüentavam juntos a Biblioteca do
Instituto Profissional Masculino, na Rua Piratininga e a Biblioteca Municipal de São
Paulo, na Praça Dom José Gaspar, no centro da cidade", descreve o crítico Enock
Sacramento no livro dedicado à obra de Sacilotto que lançou recentemente. O próprio
Sacilotto afirma que foi aí que sua arte começou de fato.
 Divulgação
Concreção
7959: várias impressões visuais e ilusão de movimento |
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- Mas por razões econômicas foi necessário ainda algum tempo para
que ele se afirmasse como artista. Formado em 1944, Sacilotto começou a trabalhar como
desenhista de letras de alta precisão e depois como auxiliar num escritório de
arquitetura, enquanto se dedicava à pintura e ao desenho, com forte teor expressionista.
Como explica o crítico Walter Zanini, foi no escritório de arquitetura que descobriu um
novo e sugestivo mundo: o das plantas e projetos de arte. "Empolgou-se com o estudo
geométrico da superfície, com o vigor e a limpeza da composição, com a distribuição
dos elementos representativos no espaço."
- A transição do naturalismo expressionista para o rigor da
geometria construtiva se deu paulatinamente, no final da década de 40. Em 1947 conhece
Waldemar Cordeiro, com quem passa a manter uma intensa relação, tornando-se um dos
membros do movimento Ruptura, liderado por Cordeiro cujo cinqüentenário foi lembrado no
ano passado com um excelente ciclo de exposições organizado no Centro Universitário
Maria Antonia.
 Divulgação
Figura,
óleo sobre tela: nos anos de 48 e 49 artista vai aos poucos mudando a cena em uma
composição geométrica, dissecando-a em planos e cores |
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- A transição se deu de maneira intensa, mas gradual. Há
interessantes pinturas feitas por ele nos anos de 48 e 49 nas quais é possível verificar
como o artista vai aos poucos transformando a cena em uma composição geométrica,
dissecando-a em planos e cores.
- Em 1948, segundo Sacramento, surge sua primeira pintura abstrata.
Sua última tentativa de pintura figurativa, um retrato de sua mulher, data de 1950. No
ano seguinte, Sacilotto já mostrava na 1.ª Bienal de São Paulo a tela Pintura 1,
realizada no ano anterior sob forte influência do recém-descoberto Mondrian. A mostra,
cujo prêmio internacional de escultura foi dado ao suíço Max Bill, foi importante para
canalizar os jovens artistas em torno de um movimento coeso e em sintonia com a produção
internacional.
Divulgação
Concreção
0005, escultura em aço carbono pintado, com 4 metros de altura, construída em 2000
e instalada em Santo André, cidade onde nasceu e viveu |
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- Um dos principais atrativos da obra de Sacilotto é a liberdade com
que lida com as ambigüidades da forma, criando inúmeras combinações a partir de um
mesmo e limitado universo de padrões e elementos. "Ele joga com a percepção
ambígua do que está na frente, atrás ou entre o quadrado, seja ele pintado, cortado ou
dobrado", explica Maria Alice Milliet, em texto publicado no catálogo da mostra dos
500 Anos.
- Não é só no campo da pintura e do desenho que Sacilotto
demonstrou todo o seu talento. O crítico Adolpho Leirner, que possui a mais significativa
coleção de arte concreta brasileira, lembra que ele foi o primeiro a fazer uma dobra na
pintura brasileira, em meados dos anos 50. A peça, que se encontra em sua coleção,
antecedeu os célebres Bichos, de Lygia Clark. Ela própria teria dito a Sacilotto que
faria a mesma coisa que ele, só que a dela iria se mexer.
- Há dois belos exemplos de sua produção escultórica em locais
públicos de Santo André, que recentemente homenageou o artista ao instalar na cidade
dois trabalhos seus. "Estar ao alcance do público dessa maneira é uma verdadeira
conquista para a arte", disse ele por ocasião da inauguração das obras.
- Se sua cidade natal o relembrou recentemente, há bastante tempo
que não se realiza uma grande mostra de sua obra. Galerias como Silvio Nery e Dan também
realizaram exposições com recortes de sua produção, mas sua última retrospectiva data
de 1985.
REPERCUSSÃO
Sacilotto tem grande importância na arte brasileira da segunda
metade do século 20, porque foi uma das figuras mais proeminentes do concretismo do
País. O ponto de partida desse movimento ocorreu em 1952, com a exposição Ruptura,
organizada por Waldemar Cordeiro, no Museu de Arte Moderna, em São Paulo. Em 68, quando
foi organizado o primeiro Salão de Arte Contemporânea, em Santo André, pediram para
Cordeiro escrever um prefácio e, em seu texto, ele chamou Sacilotto de viga mestra da
arte concreta brasileira. Sacilotto foi uma das mais importantes figuras da arte
brasileira, porque o concretismo foi um dos mais importantes movimentos da arte
brasileira.
Enock Sacramento, autor do livro 'Sacilotto'
Eu estava viajando e fiquei chocado ao saber da notícia. E ontem
à noite, eu estava com um livro dele nas mãos. Eu adorava Sacilotto, éramos amigos,
ouvíamos músicas juntos. Era uma pessoa honesta, sincera, simples. Tinha tudo que um
artista deve ter. Perdemos um grande amigo, uma pessoa linda e humilde, um grande
concretista. Talvez o mais coerente deles.
Adolpho Leirner, que reúne uma das mais importantes coleções de arte concreta
brasileira
Soube agora da morte dele. Não há
dúvidas de que foi um dos mais importantes artistas do concretismo. E continuava ativo.
Não só era um dos mais importantes da arte concretista, como continuava produzindo. É
uma perda. Estamos perdendo os artistas que foram grandes responsáveis pela arte moderna
brasileira, que mudaram a fase da arte no País. Essa geração foi tão fundamental para
a formação da arte brasileira, que teve repercussão internacional.
Vera d'Horta, pesquisadora do Museu Lasar Segall
Sacilotto foi um integrante convicto do
movimento concretista e sempre acreditou em suas palavras de ordem. Não esqueço de que
só aceitava a música de Schoenberg - e nunca a de Stravinski, seu "rival" -
porque essa era a verdade das vanguardas nos anos 1950, e ele aprendeu assim. Como bom
concretista, entendia a arte como produto, não como expressão da individualidade. Queria
construir formas objetivas e estáveis, não extravasar. No entanto, paradoxalmente, foi
também um artista intuitivo e sensível - talvez o mais sensível do grupo todo. Se
podemos usar esse termo para um pintor com seus princípios, teve até momentos de
lirismo, nos anos 50 e 60, com certeza a despeito dele mesmo. Deixa uma obra inteligente e
muito respeitável mas - previsivelmente - não muito envolvente, não contagiante.
Olívio Tavares de Araújo, crítico de arte
O Sacilotto foi um artista fundamental na
história da arte brasileira. O uso que ele fazia das cores na década de 50 e na
posterior influenciou muitos artistas, como Lígia Clark. Do pessoal do Ruptura, ele era o
que tinha a sensibilidade de cor mais apurada. Foi o Sacilotto que trouxe a combinação
inusitada do roxo e do laranja, por exemplo. Não há dúvida que ele foi um dos mais
importantes artistas da fase concreta. É uma pena.
Lorenzo Mammì, diretor do Centro Maria Antônia
http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/02/11/cad028.html
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